Síndrome rara faz a pessoa não conseguir tirar músicas da cabeça

Imagine passar o dia inteiro ouvindo as músicas de um mesmo CD? Com certeza depois de algumas horas você já estaria de saco cheio, agora imagine se você fosse obrigado a ouvir essas mesmas músicas continuamente durante o resto de sua vida?

Esse é a realidade das pessoas que sofrem de uma síndrome rara que afeta um em cada 10 mil idosos acima do 60 anos, a “ear syndrome”, ou síndrome do ouvido musical, no Brasil conhecida simplesmente pelo termo ‘alucinações musicais’.

Os idosos afetados pela enfermidade tendem a ouvir uma lista de seis a dez músicas que se repetem constantemente em suas cabeças, como o caso da aposentada britânica Cath Gamester de 84 anos. Ele conta que o transtorno começa desde da hora que levanta da cama e segue ao longo do dia, enquanto realiza suas tarefas diárias. O problema só termina pouco antes de dormir, e o pior é que as músicas são sempre as mesmas.

A lista da parada mental de Gamester inclui Parabéns pra você, o hino nacional britânico, e hinos religiosos, sempre na voz de um tenor masculino, que segundo ela, ao menos é do seu agrado.

É um tenor, uma voz de homem. E é uma voz bonita, muito forte e alta, com música de som de fundo.

Dentre as seis canções que ela ouve sem parar, uma delas é, sem dúvida a pior, conta ela:

A música Parabéns para você, a cada dois minutos estou desejando feliz aniversário para alguém, eu odeio essa.

A aposentada explica que tudo começou há dois anos, quando sua irmã morreu e ela começou a tomar antidepressivos. Mas mesmo depois de interromper o tratamento, as músicas não cessaram.

Fui dormir, e quando acordei, por volta das 8h da manhã, logo ouvi a música, e era o hino nacional. Olhei por todos os lugares, abri a porta de casa. Achei que eram os vizinhos, mas me dei conta de que estava dentro da minha cabeça.

O Dr. Nick Warner, psiquiatra especialista em idosos, já acompanhou vários pacientes com alucinações musicais.

Ele explica que o problema não tem nada a ver com os ouvidos, e ressalta que na maioria dos casos as músicas são muito parecidas, senão as mesmas.

Percebi que muitas pessoas com a doença ouviam hinos religiosos e canções de Natal. Particularmente o hino abide with me (‘permaneça ao meu lado’, em tradução livre), ouvido por 50% dos pacientes.

É um hino muito reconfortante. Há de se especular se há algo em específico gerando essa necessidade de segurança quando se está envelhecendo. Uma mensagem de que você não está sozinho e de que está seguro.

Outra característica da doença é o fato de que em grande parte dos casos os pacientes vivem sozinhos.

Alguns pesquisadores acreditam que o problema pode estar relacionado com a perda de audição provocada pelo avanço da idade, o que levaria o cérebro a fazer a tentativa de preencher o vazio do silencio com músicas conhecidas do paciente.

Apesar de serem conhecidas há mais de um século, as alucinações musicais ainda não são muito estudadas.

Em uma pesquisa realizada em 2005 e publicado em Jornal de Psicopatologia da Inglaterra, o Nick Warner mostra uma análise feita em 30 casos acompanhados ao longo de 15 anos.

Ele conta que ouvir música libera substâncias químicas que fazem bem ao cérebro e chegou à conclusão que, em dois terços dos casos, a alucinação musical era a única perturbação mental dos pacientes.

Warner também descobriu que um terço era total ou parcialmente surdo e que as mulheres tendem a sofrer mais do mau que os homens. A média de idade dos doentes é de 78 anos.

Os pacientes pesquisados ouviam uma grande variedade de canções escudadas repetidamente durante a vida ou que tinham algum significado emocional. E em dois terços dos casos eram músicas religiosas.

A pesquisa também revelou que as alucinações são distintas daquelas sentidas por portadores de esquizofrenia, que escutam apenas vozes, e não a mesma sequência de músicas.

A Senhora Cath deixa uma mensagem de esperança as pessoas que sofrem com as alucinações:

Gostaria de dizer a todos que têm o mesmo problema que eu, para que sejam felizes, aproveitem a vida mesmo assim. Aprendi a valorizar o fato de que ao menos não tenho uma doença grave.

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