A internet está me deixando doente

Tem gente que não tem propensão a “tecnologices”. Gostaria de ser uma dessas pessoas, mas, infelizmente não sou. E acredito que muitas das criaturas que se propuseram a ler este escrito também não são.

Às vezes, estamos até sem tempo livre. Mas sempre damos um jeitinho de dar uma checada no email, ou dar uma passada no Twitter, ou no Facebook. Ou mesmo de dar aquela navegadinha rápida, de apenas cinco minutos, na web. E os cinco minutos viram duas, três horas, e lá se foi aquela noite planejada de sono profundo.

Sim, você sabe perfeitamente bem do que estou falando. Pois bem, tenho uma boa notícia. Quando estamos sentados diante de um computador, usando teclado e mouse, não são apenas nossos olhos e dedos que estão se movendo. Usamos a maior parte de nosso corpo quando nessa atividade, ahham, nobre.

Há poucos dias esbarrei, por pura sorte, no mais completo e interessante infográfico que já encontrei na web acerca do tema saúde online. Segundo essa ótima peça, que fica no site “Intec.net” e que foi produzida a partir de dados dos sites “TopTenz” e “Center for Internet Addiction Recovery”, nossos músculos estão constantemente em uso quando estamos sentados em posição ereta diante da máquina, e todos os nossos órgãos estão em funcionamento, “às vezes até mesmo nosso cérebro”. Muito lindo isso tudo. Só que, lamentavelmente, ficar pendurado num computador usando a internet não se qualifica exatamente como malhação.

O hábito de ficar muito tempo direto surfando tem como primeira consequência braba o fato de afetar os olhos. Qualquer um de nós já sentiu isso, ou sente diariamente. A vista fica cansada de se fixar durante horas na tela da máquina. Especialmente se a pessoa trabalha em ambiente com ar condicionado, em que a secura do ar agrava perigosamente essa condição. Existem técnicas simples que diminuem o mal estar, como, por exemplo, pingar periodicamente nas vistas soro fisiológico (para pobres) ou lubrificantes oculares especiais (para ricos), além de planejar pausas bem intercaladas entre os períodos de uso contínuo, que não devem exceder duas horas. Mas, cá entre nós, quem é que tem suficiente disciplina (e saco) para seguir à risca essas recomendações? Pelo menos eu não tenho. Você tem? Não, nem precisa me responder. Já sei a resposta.

A variedade e a profusão de informações disponíveis na grande rede com relação a assuntos de saúde é um outro problema que pode transformar a vida do internauta num inferno. Nunca esquecerei o que se deu comigo no final do ano 2000, quando senti uns tropeços esquisitos em meus batimentos cardíacos e procurei um especialista. Depois de alguns exames, ele me diagnosticou com isquemia cardíaca e um leve estrangulamento numa artéria coronária — eu tinha que fazer uma angioplastia para instalar um “stent”, uma pecinha metálica que entraria pelo vaso e, alargada por um balão inflável dentro da artéria, desentupiria o ponto perigoso. Nada de sério demais, procedimento corriqueiro e sem maiores complicações.

Mas o espertinho aqui se meteu a pesquisar na internet do que se tratava aquilo tudo, de modo a não ser pego desprevenido na hora do “vamos ver”. Foi o meu erro. Só encontrei desgraça. A maioria dos sites especializados sempre apresentava o pior cenário. A cada página que lia, mais apavorado ficava. Por exemplo, diziam que a dor para instalar o stent era absolutamente lancinante, na hora de inflar o balão. Outros sites contavam que a recuperação era arriscada e dolorosa. Outros ainda insistiam em fornecer estatísticas informando o número de óbitos em consequência da colocação de stents. Resultado óbvio: a noite anterior à angioplastia me foi repleta de pesadelos horrendos e insônias intermináveis.

Na manhã seguinte, antes de adentrar a sala cirúrgica, fiquei a ponto de ligar para meu advogado para ditar rapidamente um testamento, de modo a não deixar minhas vastas fazendas em Mato Grosso ao sabor da dura letra da lei. Mas, graças a Deus, e à maravilhosa curva de Gauss, o procedimento transcorreu na mais santa paz. O momento do balão, o tão temido, não foi mais do que um simples “puff” sem graça, inaudível e totalmente indolor. O cirurgião notou o suor descendo pela minha fronte e me perguntou o que havia. Eu expliquei que tinha me assustado com o que tinha lido na web e ele desandou a rir, explicando que eu não poderia ter cometido besteira pior.

Pois então é isso, guarde essa dica para si. Naturalmente, algumas das informações assustadoras que se encontra na internet a respeito de doenças são reais. Mas grande parte é disparate. Procure sempre um médico de confiança de deixe ao encargo dele todo o procedimento. Esta recomendação não é brincadeira não. Muitas pessoas se acostumam a fazer essas pesquisas internéticas e entram em parafuso. Até mesmo pacientes que nunca tiveram surtos de ansiedade com relação a assuntos de saúde se tornam meio pancadas da cabeça. Um dos primeiros sintomas dessa espiral descendente é quando, a qualquer dorzinha besta, a pessoa começa a fantasiar cânceres, tromboses e outras mazelas tenebrosas. A dica não é simplesmente menosprezar qualquer sinal de anomalia na saúde, mas sim não exagerar na ansiedade, só isso.

Um problema relativamente comum dentre os webviciados é ficar pulando sem parar de um site para outro, às vezes a esmo, outras vezes em busca de uma informação específica. Isso pode levar horas a fio e, nessa fixação por encontrar o que deseja, o usuário muitas vezes permanece quase imóvel, congelado naquela busca incessante. Bem, aí o bicho pega. Existe um quadro chamado trombose venosa profunda, mais usual em voos de longa distância em que o passageiro passa mais de cinco horas sentado direto. Isso causa a formação de um coágulo numa veia bem interna. É também conhecida como “a síndrome da classe econômica”, pois acomete com razoável frequência passageiros que viajam no setor lata de sardinha da aeronave. Só que, num avião, o risco dessa doença é um pouco maior devido à desidratação causada pela baixíssima umidade do ar. Portanto, para nosso próprio bem, vale a pena deixar o despertador do computador programado para apitar, digamos, de duas em duas horas. E, quando apitar, dê uma levantadinha, faça umas flexões de perna, de braço, uns polichinelos e, de quebra, pingue umas gotas de soro nos olhos, para combater também aquela secura ocular acima mencionada.

Não esqueça também de, durante suas duas horas contínuas de atividade diante do computador, adotar uma postura o mais empinada possível. Sua coluna vertebral e seus músculos de apoio agradecerão encarecidamente. Costas corcundas ou bunda torta na cadeira do computador podem causar dores difíceis de curar. Também ajuda se você decidir parar um pouco de comer porcarias, tipo batata frita ou salgadinhos de queijo cheios de gordura trans regados a refrigerante morno, enquanto se delicia clicando em links sem hora para acabar.

E a cabeça? Sim, aquela com que às vezes pensamos. Bem, três são os tipos de dor de cabeça que podem afetar criaturas muito grudadas na internet. A primeira delas é a dor de cabeça de tensão, que em geral não é causada por estresse, mas sim por excesso de esforço no pescoço ou nos olhos. A segunda, essa sim, é chamada dor de cabeça de estresse, e, ao contrário do que se pode imaginar, não é causada por algum grande episódio de estresse, mas sim pela série de pequenas aporrinhações a que somos submetidos ao longo do dia. Essas chateações são, em geral, difíceis de evitar, pois geralmente têm a ver com trabalho, dívidas, família e coisas assim. O que podemos mudar é a forma com que digerimos essas encheções de saco. Aí está o segredo.

O terceiro tipo de dor de cabeça é a denominada dor de cabeça diária crônica em, para saber se você é vítima dessa modalidade de cefaleia, basta contabilizar se você sofre de dor no quengo mais de metade dos dias de um mesmo mês. Caso positivo, então é hora de ir ao doutor.

Estados de patologia psíquica também acometem o internauta fanático. Não digo que ele se torne pinel, mas quase isso. Há vários exemplos de “doenças” da alma ligadas ao uso de internet, das quais apenas algumas serão citados aqui. A primeira delas é conhecida como “síndrome de Munchausen”, nome inspirado nas histórias infantis sobre as aventuras do Barão de Munchausen, um mentiroso inveterado. Os que sofrem dessa síndrome inventam doenças ou tragédias pessoais só para chamar a atenção. Esses pobres coitados fingem quase o tempo todo quando estão online e, às vezes, também no mundo real. Elas dizem, por exemplo, que foram vítimas de acidentes, estupros, assaltos ou doenças graves, tudo isso para que os outros sintam pena ou preocupação e, com isso, voltem seu olhar à vida da pessoa, que, no fundo, não passa de um ser humano carente ou problemático.

Um outro estado emocional nocivo é a denominada “depressão das redes sociais”, muito comum entre adolescentes do sexo feminino que transitam muito por sites como Facebook. Essas jovens se tornam propensas à depressão em função de um excesso de conversas acerca de decepções amorosas, paixões não correspondidas e percalços semelhantes na esfera do coração. Homens, em geral, não sofrem tanto disso, pois, como sabemos, somos seres mais brutos e racionais. Se você é um deles, sabe muito bem do que estou falando. O problema com essa modalidade de desequilíbrio predominantemente feminino é que o ânimo da jovem tende a levá-la para perto do fundo do poço, criando em torno de si um mar de emoções negativas, que só fazem mal à saúde.

Outro fenômeno pegajoso é a “raiva na internet”, um quadro em que o uso da rede faz eclodir na criatura seus instintos mais agressivos e que, no mundo real, por uma série de razões, permanecem latentes ou deliberadamente escondidos. Esse quadro pode levar a extremos, como a perseguição a integrantes de minorias ou a inimigos não confessos. Os casos mais dramáticos podem levar a desfechos violentos, o que pode ter consequências funestas, como bem sabe qualquer um que acompanha o noticiário policial, tanto aqui no Brasil como no exterior.

De volta ao âmbito físico, várias moléstias acometem especificamente a parte de cima do corpo: síndrome de tensão no pescoço, síndrome do túnel do carpo, síndrome do túnel do cúbito, tendinite, tenossinovite, bursite, lesão por esforço repetitivo e síndrome do desfiladeiro torácico são apenas algumas delas.

Diante de toda essa pletora de doenças ligadas direta ou indireta ao uso excessivo da grande rede, a mais comum delas tem sido pura e simplesmente o vício em internet, mal que, por sua abrangência, pode incluir o mero ato de datilografar, de visitar salas de bate papo online, ou fazer compras online, indo até uma das manifestações mais sofisticadas, que é a de se viciar em jogos multiplayer ou MMORPG, que, em inglês é chamado “heroinware”, um estágio em que os mundos fantasiosos dos games podem, digamos, “sugar” o jogador para dentro das realidades virtuais, afastando-o da genuína realidade, e muitas vezes pondo em disco casamentos, famílias e carreiras profissionais.

Se você desconfia que, quem sabe?, poderia estar vivendo um estado de vício em internet, vale a pena fazer a si mesmo algumas perguntas:

  • Você consegue limitar seu tempo de uso de internet?
  • Ficar navegando é algo que toma a maior parte de seu tempo livre?
  • Você perde a noção do tempo quando está online?
  • Tem gente que toma certas precauções ou atitudes no sentido de ficar online o maior tempo possível, sem interrupções: estocar sobre sua mesa do computador várias refeições para não ter que interromper as navegações; usar fraldas para não ter nem que ir ao banheiro fazer xixi; beber energéticos para ficar acordado mais tempo; ficar fazendo upgrades de hardware e de software quase que continuamente para melhorar seu rendimento online etc. É o seu caso?
  • Você experimenta sensações do tipo crise de abstinência quando, por algum motivo, não consegue se plugar à rede? Emoções como raiva, desejo intenso, inquietação, mau humor, irritabilidade ou depressão?
  • Você utiliza o computador para escapar da realidade?
  • Você mente para seus familiares ou amigos sobre o quão intensamente usa o computador para ficar na rede?
  • Você se sente isolado no mundo real?
  • Você já se percebeu trocando emoções reais por emoções que passou a experimentar na internet por meio de redes sociais, joguinhos ou pornografia?
  • Você alguma vez já arriscou algum relacionamento na vida real ou mesmo seu emprego por causa do uso excessivo de internet?

E, para terminar, duas tabelinhas que ilustram bem essas questões.

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