Atenção: Clone esse texto à vontade!

“Ó, Senhor, tenha piedade! Eles são sabem o que estão fazendo!” No caso em questão, não sabem MESMO. Porque plagiam. Colam. Clonam. Copiam. Ou seja, fazem o que a maioria faz e nem se dá conta: usa a função Copy and Paste de tudo o que vê pela frente, indiscriminadamente. Pobres de espírito, não pensam e não querem pensar. Acham bonitinho um texto e, ah, quer saber? Quero colocá-lo no meu site! Mas nem param para pensar se alguém, em algum lugar, gastou neurônios criando aquele troço. O pensamento, coitados, nem surge na cabeça. Porque esta está preocupada em caçar algo mais que possa ser clonado. E há muita coisa, boa, ruim e péssima. Mas muito pouco tem dono, crédito. Ninguém mais presta reverências. Mas a culpa é da Sociedade da Informação, que transformou pensamentos (e textos são expressões destes, certo?) em artigos de domínio público.

O Copy and Paste é contraditório. Ao mesmo tempo em que envaidece, enfurece. Para uns, textos são desabafos que devem ser levados pelo vento, sem lenço nem documento; para outros, são fruto de trabalho (mental e braçal ou manual, que me perdoem o trocadalho). Mas o copy and paste iguala tudo. Uma vez na Web, tchau! Foi-se o lenço, o documento e…o crédito!

Eu não sou nenhum Arnaldo Jabor, claro, porque este sim é gente que sofre. Todo texto é dele, mesmo quando não é. E todos são repassados com o crédito dele. E quando os textos são dele, os plagiadores de plantão mandam sem crédito. E, assim, eu nunca mais li texto algum do Jabor sem desconfiar da procedência. Até quando sai no jornal eu penso se veio dele mesmo. Outro sofredor é Luis Fernando Veríssimo, cujos textos são mais engraçados quando não são dele.

Todo mundo agora é filósofo, e quem não é quer ser. E se não consegue – afinal, nem todo mundo tem o dom da palavra escrita – copia e pronto. Afinal, no mundo virtual o que vale é o fenômeno denorex. Quando se escreve há muito tempo, muita produção já chegou à internet. E muita coisa se perdeu. Ou se transformou. Porque, além dos plagiadores descarados, há outra raça em plena atividade: os montadores. Pega-se um parágrafo ali, outro acolá e…voilá! Obra criada e, às vezes, publicada. Já vi casos de montagens tão incríveis que mereceriam um prêmio só pelo trabalho que demandaram. Imaginem vocês como deve ser trabalhoso criar um texto inteirinho, quiçá um livro, só com copies and pasties. Assim, não se pode acusar a criatura, afinal ela teve um trabalho danado só para não ter o trabalho de pensar e refletir.

Pensar dói. Tortura. E às vezes nem a Neosa, a velha amiga do cachaceiro, resolve. Os olhos cansam e os óculos acabam chegando. Porque se há coisas que vêm com o tempo são cabelos brancos e óculos. Principalmente para quem trabalha com computadores, estes malvados. Aliás, por que ninguém ainda teve a ideia de processar o inventor do computador por danos causados pelo excesso de uso deste? Taí: entrego esta ideia à humanidade, usem à vontade, plagiem, copiem, espalhem. Sem royalties. Sem propriedade intelectual.

Pirataria de texto é meio parecida com pirataria de software. Quase todo mundo pratica, mas ninguém admite. Pois eu admito que dia desses tentei usar um software pirata. Me dei mal. Ré sem antecedentes, acho que não seria presa porque o castigo veio a cavalo. Quer dizer, veio em CD mesmo. Sem grana para investir em um software de edição de imagens caríssimo, acabei cedendo à tentação enquanto passeava pelo paraíso carioca da pirataria, o Saara, que de deserto nada tem. Dei de cara com um oásis que prometia o mesmo produto por cem dinheiros a menos. Sem que o cérebro registrasse a infração, saquei as moedinhas e levei pra casa. A bolsa voltou leve, a carteira não reclamou. Mas na hora da instalação… está até hoje em 18%. “Bem feito”, disse eu mesma para mim. “Quis dar uma de esperta e deu nisso!” Se bobear, o tal CD instalou um cavalo-de-troia que, agora, clona meus textos suados e os envia automaticamente para sites que não me pagam.

Dia desses dei de cara com um plagiador. Estava eu navegando pelos mares do copy and paste quando me deparei com mal traçadas linhas que, por serem minhas, achei mal traçadas mesmo. “Ué, mas eu conheço esse estilo. Meio aparvalhado, às vezes meio maluco, palavras desconexas…será que é?”. A dúvida me levou a consultar o Fórum PCs, aonde escrevo há cinco anos e, por isso, já acumula quase 200 textos publicados (todos meus, juro!). E achei o produto na íntegra. E comparei. Eram iguais. Só que aqui ele está assinado; lá, nem tchum!

Fiquei revoltada. Ora bolas, mas o Fórum PCs me paga para escrever – ora, ora, sim…alguém ainda me paga para escrever! E, revoltada, pensando em defender o meu hospedeiro gentil e leal (este aqui) enviei um e-mail para o cientista clonador, reclamando o crédito, pelo menos o do Fórum. E recebi uma resposta: “Ué, esse texto está em mais de cem páginas da Web, e em nenhuma delas está assinado!”. Opa, meu plagiador me fez um elogio! Mais de cem administradores de sites gostaram do que escrevi e copiaram na maior, sem me oferecerem o direito de defesa – claro, tenho maus momentos, às vezes as palavras não se entendem umas com as outras e os textos não me deixam assim tão orgulhosa.

Mas este não…ele ganhou asas e…voou! Foi parar na página do meu mais novo amigo, produtor musical de gosto duvidoso que vez ou outra escreve sobre Redes Sociais na Internet. O meu pobre texto estava ali, meio perdido, desencaixado. Mas em local de destaque. Assim, todos estavam radiante – o criador de clones, que ganhou um texto de graça, e o pobre texto, que meses depois de criado recebeu destaque na primeira página de algum lugar. E eu, que acabei descobrindo que aquele tão despretensioso trabalho tinha sido útil para alguém. Ou não. Porque nem sei se alguém visita o site do meu amigo.

Pois acabei me sentindo um Jabor. É isso mesmo: estou me achando! Meu texto agradou a cem alguéns. Quem pode dizer uma coisa dessas assim, com essa empáfia? Só eu, Jabor e Veríssimo. Assim, ganhei status de escritora plagiada, fui alçada ao primeiro nível dos produtores e disseminadores de conhecimento. Por isso, dedico esse texto ao meu amigo plagiador, ao cem que fizeram a mesma coisa (fiquei com preguiça de procurar) e entrego esta obra aqui, ESTA, ao domínio público. Não precisam assinar não. Afinal, como boa mãe que sou, fico feliz que meu filho saia de casa, passeie pelo mundo, seja reconhecido e, no final, um dia retorne para meus braços cheio de louros e vitórias.

Por Elis Monteiro

 

Compartilhe Também:

Deixe seu comentário