A internet não é um mundo paralelo

A internet está em nossas vidas desde o final da década de 80, no século passado!!! Ok, essa afirmativa não vale para todos, mas há muitos early adopters entre nós que já estão nessa há mais de 20 anos. No Brasil, no começo da década de 90 a coisa começava a esquentar; quando o Google nasceu, em 1998, já estávamos firmes e fortes desfrutando da ferramenta e muitas empresas faturavam alto navegando na “nova onda” (sim, antes da bolha pontocom que colocou tudo em seus devidos lugares).

O que atrasou a adoção em massa foi a combinação de muitos fatores, sendo o principal deles o fato de a conexão lenta tornar o acesso sofrível: não havia banda larga – em muitos lugares, até hoje não há – e os links eram caríssimos. Isso sem falar na indisponibilidade do serviço fora dos grandes centros urbanos. Sendo assim, à época era compreensível que muitos ainda encarassem a internet como novidade, ainda mais em se tratando de formadores de opinião/imprensa. Mas agora, ah, não dá mais…

O problema é que a Web ainda é tratada por muitos como uma vida paralela, um universo distinto, uma second life, mesmo estando os aplicativos ali, simplezinhos, à disposição para facilitar a comunicação com o mundo, a um clique de distância. Há muito tempo foi derrubada a barreira que separava o mundo virtual do dito “real”, isso já era, não dá mais para usar como desculpa. A internet não é um universo à parte, é apenas mais uma dentre as muitas ferramentas da vida “real”, como a TV, o rádio, os jornais, as mídias em geral, tendo a vantagem de ser feita de forma coletiva. Mas não tem jeito: principalmente a TV insiste em tratá-la como o submundo dos acontecimentos, o universo “caverna do dragão” no qual coisas estranhas acontecem – como se na vida “real” não fosse sempre assim.

A Humanidade é a mesma, seja dentro da internet ou fora dela. A mesma coisa se dá com a TV – o fato de uma notícia não ser veiculada não significa que ela não aconteceu, simplesmente que passou despercebida. As vidas continuam sendo tocadas, as coisas acontecem o tempo todo, e a internet é uma parte disso. Não há amigos virtuais e amizades reais, não há contato indireto, os arrobas (perfis no Twitter) têm identidade e, se não têm, são tão estranhos quanto quaisquer indivíduos que passem por nós no metrô ou no meio da rua. Não existem na nossa timeline – não ganham parabéns em seus aniversários, não recebem e-mail e nem um sinalzinho de “curtido” no Facebook. Mas isso não significa que quem está na nossa lista de contatos das redes sociais seja virtual e aqueles estranhos na rua sejam reais.

Esta semana, parei para observar uma notícia que tratava sobre a invasão de sites do governo brasileiro e do IBGE. Em primeiro lugar, a apresentadora falava em ataques de hackers – o que muito me irrita, uma vez que coloca todas as modalidades de profissionais de segurança da informação na mesma sacola; a segunda irritação veio por conta da frase “um site da internet”. Esse pleonasmo já devia ter sido expulso da mídia há muito tempo!

Achar que a internet é um universo paralelo leva muita gente a agir errado, é um fato. Sempre digo que ninguém tem coragem de sair nas ruas com um cartaz pendurado no pescoço dizendo o quanto bebeu no dia anterior, que está de ressaca e que odeia o chefe. Mas no Twitter fazem isso, assim como no Facebook. E a mídia não ajuda em nada levando todos nós a crermos que a internet é uma rede distante da realidade. Não é e nunca mais vai ser!

O comportamento das pessoas no Facebook também é bastante estranho. Não há uma facebooktiqueta definida e, sendo assim, ainda se insiste no comportamento paralelo – mal e porcamente comparando, quem é que sai na rua cutucando as pessoas ou solicitando que elas sejam suas amigas sem as conhecer de verdade? Pois no Facebook o fato de ter alguém (ou muitos alguéns) em comum não deveria dar a ninguém o direito de tentar fazer amizade e, assim, ter acesso à intimidade de pessoas que não pertencem à sua vida. Porque é mais ou menos por aí, né?

As redes sociais são condomínios de pessoas, e os perfis são os apartamentos – cabe a cada um decidir se liberará a entrada apenas para conhecidos ou se estranhos poderão adentrar na festa. Correndo-se todos os riscos, é óbvio.

A Web deve ser encarada como um pedaço de nossas vidas – e grande, haja vista que passamos boa tarde de nosso tempo usando as ferramentas hospedadas nela. Quando ela é encarada como um habitat estranho e pitoresco, perde-se a real noção do que pode ou não pode ser praticado. Se a internet é um mundo paralelo, a moral que se aplica lá dentro, mesmo que os seres que a constituem sejam os mesmos, pode ser diferente da “usada” aqui fora. E isso é ruim, certo?

 

By Elis Monteiro

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